O SUSTO.
Quando percebe que vai receber uma notícia ruim, você espera QUALQUER coisa, menos que alguém que você nem sabia que tava na estrada, MORREU por acidente. Como assim acidente? Isso é ridículo. Num acidente você quebra uma perna, perde os dentes e talvez um pouco de cabelo. Mas não deveria MORRER. Porque é trágico. Assim, sem nem ter chance de ter esperança... ela não deveria morrer por último???
E também, as pessoas que vivem deveriam ter a chance de se preparar, sabe? Sair do trabalho, chegar em casa e tomar um banho. Pra depois ficar sabendo que fulano MORREU.
A ESPERANÇA.
Ela morreu, a esperança. Mas como você tá acostumado a ouvir que ela é a última a bater as botas, daí você passa a acreditar que a esperança da SUA esperança ainda não morreu. Sabe como é? Porque tem diferença. A esperança da SUA esperança é bem menor e mais fraca, é claro. Tirando o fato de ela ser só sua. Daí, ela pode ser do tamanho que VOCÊ quiser.
Então, minha esperança particular durou alguns segundos, entre receber a notícia e me lembrar que a pessoa realmente poderia estar viajando aquela hora. Depois disso, ela continuou sem querer ir embora e me acompanhou no banco do passageiro, enquanto eu dirigia em direção ao lugar em que ela finalmente deveria me deixar. Aliás, talvez ela estivesse no próprio lugar do motorista, afinal ela sou eu e pode ocupar o mesmo corpo que eu. Só sei que ela fez os pedais do carro ficarem estranhos, os sinais vermelhos e os buracos todos na minha frente, pois não conseguia desviar de nenhum.
Chegando, tentei matá-la. Mas ela só ficou em coma por algum tempo.
A VERDADE.
Essa demorou a chegar. Como, quando, onde, com quem e porque? A partir daí me dividi em duas. Aquela, que quase matou a esperança e a manteve em coma; e aquela outra, que quase secou as lágrimas tentando provar que a esperança não morreu. E nem a pessoa.
AQUELA QUE QUASE MATOU A ESPERANÇA.
A vida é assim. Qualquer um pode morrer a qualquer hora de qualquer jeito. Talvez exista destino e não dê pra evitar. Talvez dependa de cada escolha de vida. Aquela que quase matou a esperança discute sobre os fatos e os reconhece como fatos. Não mudam. Não voltam. E quando o fato é a morte, não tem solução. Discute inclusive, como tudo aconteceu. Detalhes. Batida, afogamento, capotamento, falta de ar, meio fio, cinto de segurança, açude, travas, vidros abertos ou fechados, pânico, desmaio.
Quando essa sou eu, finjo que tá tudo bem. Tudo que não tem solução, sem solução fica, não é? A gente faz de conta que se conforma. Essa sou eu no meio das pessoas. E aliás, "A vida é mesmo coisa muito frágil, uma bobagem uma irrelevância, diante da eternidade do amor de quem se ama".
AQUELA OUTRA QUE QUASE GASTOU TODAS AS LÁGRIMAS TENTANDO PROVAR QUE A ESPERANÇA NÃO MORREU.
Essa, nem todas as palavras do mundo conseguem definir. De algum jeito, ninguém sabe como, mas a esperança não morreu. A questão é: a pessoa tem uma vida inteira de memórias que só pode ser compartilhada com outra. E aí um belo dia não tem mais. Isso não pode acontecer. Se não pode acontecer, então não aconteceu e a esperança tá aqui, conosco. Até porque, "Se a TV estiver fora do ar quando passarem os melhores momentos da sua vida, pela janela alguém estará de olho em você, completamente paranóica".
A PRIMEIRA NOITE.
A noção do tempo se perde. O próprio tempo se perde na noção. Chegam pessoas, choram, gritam de dor, vão embora. Algumas ficam. Deita, levanta, tenta comer, tenta vomitar, tenta acreditar, tenta entender. Nunca vou esquecer essa noite. Às vezes ela passava correndo, como se o tempo quisesse fugir do que aconteceu, pra acelerar a dor e por fim, fazer passar. Às vezes, dor nenhuma do mundo fazia passar o tempo. Naqueles colchões espalhados no quarto de uma pessoa que nunca mais dormiria lá, porque não estava mais entre nós, o relógio, quando encostava no meu ouvido em uma das tentativas de arrumar uma posição que trouxesse algum conforto, ele gritava. Gritava os segundos passando, gritava os minutos que tentavam passar de um numero para outro l-e-n-t-a-m-e-n-t-e. Sobressaltos. Pensamentos que oscilam entre negação e aceitação. E aquela veeeelha sensação de incapacidade, essa eu já conhecia.
Essa noite pareceu não acabar nunca. E talvez fosse melhor que não acabasse mesmo. Pânico. O que vai ser de mim quando o sol nascer? Como vai nascer o sol no primeiro dia em que a pessoa que dividiu tantas memórias comigo não está mais aqui? De repente, ele ameaça aparecer. Não quero. É como se ele fosse confirmar que tudo passou de um pesadelo e é a pura realidade. Dói, dói, dói e pelo jeito não vai parar de doer. Pior do que pensar que daqui pra frente não tem mais a pessoa, é pensar que a saudade não vai diminuir com o tempo. Ela vai aumentar. E não tem cura.
"Ontem à noite, a noite tava fria. Tudo queimava, mas nada aquecia. Ela apareceu, parecia tão sozinha. Parecia que era minha aquela solidão."
"Ontem à noite, a noite tava fria. Tudo queimava, mas nada aquecia. Ela apareceu, parecia tão sozinha. Parecia que era minha aquela solidão."
O ENTERRO.
Esse enterro não foi da esperança.
Entrar no Parque das Flores é sempre uma péssima sensação. Passar pelas capelas procurando um rosto conhecido que indique o lugar onde você vai parar sempre faz o coração querer sair pela boca. Choro. Não dá para acreditar. Cada pessoa que chega lembra algum vínculo com a pessoa que não está mais conosco. Choro.
Quando você pensa que a ficha já caiu, não caiu. É tão inacreditável que não entendo porque as pessoas choram tanto. É tudo mentira. Isso tudo não passa de uma invenção. Não choro. Não tenho motivos para isso. A ficha tá enganchada. Daí, chega o corpo. Não quero ver. Corpo??? Como assim, CORPO?? A gente tá falando de uma PESSOA. Não é um simples corpo. Não pode ser.
Pensando bem, quero ver o tal do corpo. Meio segundo é o bastante pra me fazer tremer e sair urgente do meio dessas pessoas. É totalmente inacreditável.
Na hora do enterro, pessoas se desesperam. Eu não. Porque continuo sem acreditar. Assisto friamente, sem nem saber porque aquelas pessoas estão alí. E eu? O que é que eu fui fazer mesmo? Acaba tudo e todos começam a se afastar. Parece que foi dado o último adeus. Aí eu me lembro o que realmente estava acontecendo. E estava. E não tinha volta. Choro. Só uma pessoa poderia entender exatamente o que eu tava sentindo. E ela não podia. Por que não estava mais lá. Surreal.
A VIDA.
Ela precisa continuar. Não importa se vai continuar com a sensação contínua de vazio. Só uma palavra pode definir os dias depois do ocorrido: esquisitos. A gente lembra, esquece, aceita, nega, rí, chora, vai em frente e também olha para trás. A dor briga com a esperança. A realidade com o sonho. E o futuro com a saudade. E o tempo passa... quem quiser que pegue carona.
OBSERVAÇÃO: Isso não foi uma homenagem, foi um relato. Numa homenagem eu usaria o nome da pessoa várias vezes. Falaria do passado. Traria um pouco de alegria no meio de tante tristeza.
Em breve, posso postar uma homenagem. Mas só quando eu acreditar que todo esse relato não foi um pesadelo, e sim uma piada.

Sempre que leio isso revivo aquele maldito dia. "Como assim acidente? Isso é ridículo. Num acidente você quebra uma perna, perde os dentes e talvez um pouco de cabelo. Mas não deveria MORRER. Porque é trágico. Assim, sem nem ter chance de ter esperança... ela não deveria morrer por último???"
ResponderExcluirNão tivemos direito a nada, nem de velar, se despedir com calma, foi tudo muito brutal talvez por isso muitas vezes chego a pensar que realmente tudo não passa de uma piada de muito mal gosto.