domingo, 15 de agosto de 2010

Sobre sinaleira e egoísmo

Quem nunca reclamou de um “babaca” que de repente freou na sua frente para entrar em algum lugar, sem nem se dar ao trabalho de ligar a sinaleira? Ou você prevê o que as pessoas vão fazer no trânsito, ou um acidente acontece e a culpa ainda é sua. Dá vontade de ir lá e puxar as orelhas desse pessoal, gritar bem muito e fazê-los pedir desculpas, reconhecer o erro e aprender a usar a droga da sinaleira.
Agora se coloque na situação contrária. Primeiro você vai dizer: ah, mas eu nunca faria isso. Porém, com certeza, você já o fez. Vai dizer que nunca se pegou dirigindo distraído e esqueceu onde ia entrar e não houve tempo de avisar, entrou de vez? Ou então, que olhou no retrovisor e não viu carro atrás, resolvendo assim entrar sem dar satisfações? Mas sempre tem a quem dar satisfações. SEMPRE TEM uma moto que você não viu e que precisava saber qual seria seu próximo passo, ou um pedestre que tinha que planejar a travessia da rua de acordo com os carros que iriam entrar nela ou não.
A verdade é que o fato de cada um dirigir para si é só uma conseqüência do fato de que o mundo é egoísta. Nós somos egoístas em tudo, menos em levar a culpa. Acho que culpa é a única coisa que as pessoas gostam de dividir, isso claro, se não for possível jogá-la completamente para os outros. As pessoas aprendem com os pais e ensinam aos filhos. Todos querem ser espertos e acabam sendo egoístas. E minha gente, o mundo não vai mudar nada desse jeito.
Ligue a sinaleira e perceba como tudo fica mais fácil.
 Pense nos outros.
Cada um de nós faz parte de um organismo só: a Terra, que precisa estar em sintonia.

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CLARICE LISPECTOR, SOBRE A ESCRITA:

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio
de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento. Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de
linhas. Todas as palavras que digo - é por esconderem outras palavras. Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade. Simplesmente não há palavras. O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível para
o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim, mas é a sorte às vezes. Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro
melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora. Simplesmente as palavras do homem.

Love is the answer at least for most of the questions in my heart!

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